A Todo Vapor! Dos livros para a tela...

  • Escrito por Claudio M
  • Sep 17, 2020
  • Atualizado em Oct 20, 2020

Instale o aplicativo Bazar Club e tenha a melhor experiência de compras em seu smartphone! Você também tem acesso a alguns dos nossos produtos em nossa loja web!

A Todo Vapor! Dos livros para a tela...

Recentemente, o serviço de streaming Amazon Prime Video recebeu uma interessante adição ao seu portfólio: a série brasileira A Todo Vapor. É baseada no universo criado pelo autor Enéias Tavares, Brasiliana Steampunk. O que é? De onde veio essa idéia? É bom, vale a pena ver? O que diabos é “Steampunk”? Vem comigo, eu explico…

O quê-punk?

Steampunk. “Steam” é vapor em inglês. Mas só isso não diz nada, vamos entender do que se trata. O movimento de ficção steampunk veio de outro um pouco mais antigo, chamado Cyberpunk.

Esse termo surgiu pela primeira vez como nome de um conto de Sci-Fi escrito na década de 80 pelo autor estadunidense Bruce Bethke. Por causa de sua temática forte, esse conto inspirou uma tendência logo seguida com entusiasmo por outros autores, sendo o canadense William Gibson o mais significativo em sua obra “Neuromancer”, de 1984.

O que caracteriza uma obra Cyberpunk é um conceito curto: “high tech, low life” (tecnologia em alta, vida humana em baixa), um cenário no qual o progresso engole as pessoas. Aço e plástico são valiosos e a alma humana, não.

Resumindo mais ainda, o que não pode faltar em uma história Cyberpunk é a distopia.

E o que diabos é Distopia?

A distopia é o contrário perfeito de uma Utopia, que seria um cenário ideal (e provavelmente que nunca vai existir) no belo e agradável no qual tudo funciona de forma perfeita e justa, todos são livres, conscientes e responsáveis.

Uma distopia, ao invés, representa uma realidade que não funciona de forma justa seja pela privação de recursos, opressão social, totalitarismo político, ou mesmo a ausência de uma sociedade organizada (anarquia). A palavra de ordem em qualquer distopia é a Injustiça: existem os que abusam e os que são abusados.

Em uma história distópica, os protagonistas em vias de regra representam a contracultura, ou seja, a resistência ao atual estado de coisas. São os revolucionários, os desajustados, os esquisitos, a areia nas engrenagens do sistema.

Bazar Club baixe agora!

Do Cyberpunk ao Steampunk

Assim como seu predecessor, a interessante corrente literária do steampunk abraça o conceito de distopia. Mas ao invés de um futuro distópico podemos ter um passado distópico.

Como? Para começar, muda-se a cabeça dos personagens para a que temos hoje. Para os nossos critérios atuais, o nosso passado é distópico: havia mais preconceitos que hoje (sexismo, racismo, homofobia, elitismo…), recursos mais escassos, autoridades arbitrárias, etc.

Para situar esse gênero no tempo, se escolheu uma época passada na qual realmente a tecnologia esmagou as pessoas: a revolução industrial. Conforme as novas tecnologias desabrocham, a sociedade civilizada tinha cada vez mais fome de coisas novas, e estava disposta a sacrificar madeira, carne e suor humanos para conseguir. Por causa da popularidade do Império inglês nessa época, geralmente chamamos esse período de Era Vitoriana.

Como outra vantagem, a recém inventada imprensa gráfica levada à escala industrial fez com que esse período fosse muito fértil em literatura, e um monte (mesmo!) de obras de ficção floresceram nessa época, alguns deles lembrados e adaptados até hoje (O Homem Invisível, Sherlock Holmes, O Fantasma da Ópera, Volta ao Mundo em 80 Dias, As Minas do Rei Salomão, Viagens de Gulliver, etc são obras européias vitorianas que atravessaram o tempo) e servem de inspiração para o gênero.

A parte da tecnologia também recebe a licença poética da época: como as pessoas comuns eram apresentadas às máquinas pela primeira vez, elas eram facilmente interpretadas como milagres na medida em que eram amadas, mas a maior parte do povo não tinha a menor ideia de como funcionavam, do que era ou não possível fazer com elas.

Por causa do obscurantismo, superstições, magia, perigos ocultos e pseudociências estarem em alta, isso se misturava com a tecnologia. Lendas folclóricas ainda eram parte do cotidiano.

A ficção steampunk usa isso: nesse gênero, a tecnologia vitoriana é tão ou até muito mais avançada que hoje, mas “funciona” à corda, vapor ou a misteriosa eletricidade estática. Essas máquinas e utensílios são de madeira ou metais dourados (porque a forja do bronze ficou mais barata na época, e a beleza desse metal era muito popular). Um drone à vapor? Por que não? Um tablet de bronze conectado a uma rede espiritual? Claro!

A Liga Extraordinária

A “Liga Extraordinária”

No fim da década de 90, o brilhante roteirista Alan Moore (que dispensa apresentações para a maioria dos amantes da cultura pop graças a obras primas como V de Vingança, Watchmen, A Piada Mortal, etc) procurou o desenhista Kevin O’neill para criar um conceito incrível de tema steampunk: e se os personagens famosos da literatura vitoriana trabalhassem juntos?

Para encarar isso com justiça, não era um conceito de todo original. Era comum na literatura da época que esses autores vitorianos fizessem citações ou referências ocultas às obras e personagens uns dos outros, como se a realidade ficcional onde viviam fosse de alguma forma compartilhada…

Isso facilitou a ideia de Moore, que em 1999, orgulhosamente lançaria pela America’s Best Comics “The League of Extraordinary Gentlemen”. Uma série que abordava uma equipe formada então por Mina Murray (nome de solteira de Mina Harker, da obra de Bram Stocker, Drácula), Allan Quatermain (de As Minas do Rei Salomão, de Henry Haggard), Capitão Nemo (de Vinte Mil Léguas Submarinas, Júlio Verne), o infame Hawley Griffin (de O Homem Invisível, de HG Wells) e o Dr. Henry Jekyll (O Médico e o Monstro, Robert Louis Stevenson), liderados por Mycroft Holmes (Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle).

Bastante irreverente e única, a obra de Moore teve um efeito interessante na cultura pop do século XX: despertou o interesse por conhecer os clássicos! Mais tarde, a obra seria adaptada para o cinema (não sem algumas adaptações que tornassem o enredo menos complexo e bem menos impróprio para as mentes mais jovens, precisamos dizer).

O Brasiliana Steampunk

Foi justamente na pegada do sucesso da “Liga Extraordinária” que o professor de literatura e autor brasileiro Enéias Tavares começou a criar seu universo Brasiliana Steampunk, com a intenção de usar personagens interessantes da literatura brasileira como heróis e vilões em contos do gênero.

“Mas como assim? A literatura clássica brasileira é chata, não tem personagens desse tipo…”

Ledo engano, caríssima alma cândida… Tão comum no Brasil quanto na Europa, a literatura de folhetim foi muito próspera por aqui. Eram pequenas novelas publicadas em jornais, e revistas populares, ou impressos de poucas páginas, com temas parecidos com a ficção científica, fantástica ou aventuresca européia, porém ambientados aqui e com a cara do nosso país.

Desde escritores mais famosos como Machado de Assis, Lima Barreto e Monteiro Lobato, até os menos conhecidos como Inglês de Souza e Augusto Emílio Zaluar, foram tão fontes vitorianas de personagens interessantes como Conan Doyle e Júlio Verne.

Brasiliana Steampunk Enéias Tavares

Para apreciar ainda mais o trabalho de Enéias Tavares, é bom lembrar que escrever em português para um cenário steampunk e preservar o “clima” da época é bem difícil. Não apenas a própria língua portuguesa de então era bem diferente, como até mesmo a mentalidade das pessoas, o jeito delas pensarem e se comunicarem, era bem diferente.

Um guia para a obra completa (até agora) de Brasiliana Steampunk, inclusive com guias para usar esses recursos nas escolas, pode ser encontrado no site oficial (http://brasilianasteampunk.com.br/)

A Todo O Vapor: A série

Voltando ao assunto desse artigo, a série agota na Amazon Prime foi originalmente criada no formato de websérie: episódios com cerca de apenas 20 minutos, despretenciosa a princípio, com uma pegada fan made mais “caseira” e bem humorada. Produzida com uma associação entre a Cine Kings produções e o autor Enéias Tavares, e dirigida por Felipe Reis.

Preservando o estilo folhetinesco, a trama da série é de simples entendimento, cheia das coincidências fortuitas que caracterizam o gênero. Porém faz uso de uma narrativa com alguns pontos fortes de estrutura, como o uso de flashbacks, voz de primeira pessoa e outros truques que costumamos ver em livros.

O clima é despreocupado, com menos drama do que deveria, e a ação é apenas simulada, sem grandes méritos. Quem já jogou RPGs presenciais de Live Action vai reconhecer a dinâmica.

Um ponto forte são os efeitos especiais, visto que boa parte dos cenários é criada por computadores mas se integra perfeitamente às locações reais, a ponto de você não perceber a diferença. As tomadas externas são realmente muito boas.

Precisamos deixar claro: as interpretações de alguns atores deixam um bom espaço para melhorias, mas se a gente lembrar da proposta do projeto isso pode ser relevado.

A primeira temporada

A temporada original de A Todo Vapor é composta de 8 episódios curtos. A trama começa quando dois investigadores bastante peculiares são chamados para investigar estranhos assassinatos que replicam os arcanos maiores do Tarot. Na medida em que a trama avança, nossa equipe de protagonistas vai recebendo adições.

O enredo se passa na Vila Antiga dos Astrônomos, em Campinas, SP (o adjetivo “dos Astrônomos” é uma adição poética comum na obra. As cidades são referidas de forma pomposa, como “São Paulo dos transeuntes apressados”, ou “Porto Alegre dos amantes”).

Personagens da série A Todo Vapor

Os personagens

Um dos pontos mais interessantes da série é que seus protagonistas, vilões e até mesmo alguns figurantes que encontram foram retirados ou rendem homenagens à obras da literatura brasileira.

Nossos heróis investigadores fazem parte de uma organização de alcance nacional chamada de “Parthenon místico”, que entre outras coisas combatem os “positivistas” (essa corrente de pensamento, nascida na França, de fato existiu, mas a steampunk brasiliana acrescentou seu toque folhetinesco de fantasia), um movimento de agentes da revolução industrial que odeiam as liberdades individuais e criam máquinas fantásticas para seus propósitos nefandos…

Capitú: nascida Maria Capitolina Santiago, essa moça “com olhos de cigana” é talvez a mais famosa e discutida personagem da literatura brasileira, original do romance “Dom Casmurro” de Machado de Assis.

Capitú aparentemente acabou mandando seu desconfiado marido Bentinho “às favas”, agora é divorciada, progressista e feminista por excelência, e assumiu o pseudônimo Capitú Machado. Ela é a líder do núcleo paulistano. Na série é interpretada pela atriz Thais Barbeiro.

Juca Pirama: um órfão com um nome inspirado no poema indianista i-Juca Pirama de Gonçalves Dias. Seu nome significa “aquele marcado para morrer” (mas não somos todos?).

Ele foi criado em um orfanato bastante peculiar, o que lhe ensinou algumas habilidades interessantes… É interpretado pelo próprio diretor da série, Felipe Reis.

Doutor Benignus: Médico. naturalista e “cientista excêntrico” retirado diretamente das páginas do folhetim de ficção científica de mesmo nome, escrito pelo português radicado no Brasil Augusto Emílio Zaluar. É interpretado pelo ator e músico Luiz Carlos Bahia.

Vitória Acauã: retirada e adaptada do sinistro romance “Acauã”, de Inglês de Sousa, Vitória - possivelmente injustiçada pelo romance - aparenta ser uma vidente e médium indígena, que ocasionalmente pode ler mentes e falar com espíritos. Ela é vivida na série pela linda atriz Pamela Otero.

Sérgio Pompeu e Bento Alves: Adaptados do romance de Raul Pompéia “O Ateneu” (um colégio interno no Rio de Janeiro), Sérgio é um ocultista com dons paranormais e um grande carisma. Bento é um aventureiro brutamontes de pavio curto, e também um aeronauta. Sérgio e Bento são intepretados por Pedro Passari e Cláudio Bruno, respectivamente.

Sim, Sérgio e Bento são namorados e apaixonados. Os dois são parceiros de vida singrando os céus do Brasil seguindo o chamado da aventura.

Vale a pena?

Você vai encontrar muito poucos trabalhos tão originais e criativos quanto essa série. E o potencial educativo de toda a Brasiliana Steampunk é enorme.

Se você gosta e conhece a literatura clássica brasileira, é um prato cheio com brasilidade e diversão. Se não conhece ou nunca prestou atenção ao que te obrigaram a ler na escola, esse pode ser aquele tempero a mais para despertar sua curiosidade novamente.

O episódio 4, da primeira temporada, apresenta um breve e delicioso momento com uma pequena figurante muito especial. Tenho certeza que você vai gostar…

“Lá em cima mora um fantasma, mas o coitado sofre de asma, portanto se o vires não fique pasma”

Bazar Club baixe agora!

 

Qual a sua opinião? Deixe um comentário!

comments powered by Disqus