Como as vacinas funcionam

  • Escrito por Claudio M
  • Nov 02, 2020
  • Atualizado em Nov 02, 2020

Instale o aplicativo Bazar Club e tenha a melhor experiência de compras em seu smartphone! Você também tem acesso a alguns dos nossos produtos em nossa loja web!

Como as vacinas funcionam

Olá! Observando as redes sociais esses dias, temos notado que há muitas dúvidas, desconfianças e mistificações sobre o que as vacinas são, se são seguras para a saúde ou não, e o que podem ou não fazer para ajudar quem se imuniza com elas.

Uma das nossas missões na internet é manter os brasileiros informados sobre muitas coisas que podem melhorar nossa qualidade de vida. E, acima de tudo, qualquer boa informação sobre saúde pode salvar vidas.

Esse artigo é uma prévia para uma próxima matéria na qual falamos especificamente sobre as vacinas em desenvolvimento para a pandemia de Covid-19. Então se você já não tem dúvidas a respeito de como as vacinas funcionam, sua importância, e como são produzidas e distribuídas, você talvez se interesse em seguir para o próximo artigo . Ainda assim, eu recomendo fortemente a leitura prévia a seguir.

Então vamos logo derrubar esse muro de uma vez por todas: a partir de agora mais fatos, menos opiniões, e menos especulação.

O que é uma vacina

Para quê serve uma vacina?

A resposta mais curta que eu posso dar a esse respeito é: uma vacina é uma treinadora do nosso sistema imunológico. Mas para entender direito esse conceito, precisamos entender direito o quê esse tal de sistema imunológico é:

Também chamado de sistema imune é a linha de defesa básica do nosso corpo contra corpos estranhos, doenças infecciosas e até mesmo alguns venenos. Nós nascemos com esse “protocolo de segurança” que usa vários orgãos (a medula óssea - o “recheio” dos ossos -, o timo, os linfonodos - pequenos gânglios espalhados pelo corpo -, as tonsilas - são estruturas na faringe, como a famosa amígdala - e o baço) e tipos especiais de células do sangue como os linfócitos (os famosos glóbulos brancos) e os plasmócitos. Pense em um aparato de guerra: os órgãos são fortalezas e quartéis, as células do sangue são os soldados.

Quando nosso corpo está sob ataque, as armas que esse aparato de guerra usa são físicas (as células de defesa simplesmente “saem na mão” com os invasores) ou químicas (o corpo produz substâncias que se espera serem eficazes contra os invasores - os anticorpos, e tenta criar dificuldades para eles, como aumentando a nossa temperatura, daí a “febre”).

Pois bem: quando nosso corpo enfrenta uma infecção que ainda não conhece, o sistema imunológico parte para a briga, mas ainda não desenvolveu uma estratégia vencedora. Ele não sabe o que está enfrentando ainda. Então o que ele pode fazer é improvisar e ir na base da tentativa e erro. Talvez ele não encontre essa tática de vitória a tempo, e com certeza vai cometer muitos erros tentando. Alguns desses erros podem até piorar o nosso quadro clínico em vez de ajudar. E sim, podem matar. Uma reação imunológica exagerada e equivocada a uma infecção pode ser a causa da morte de uma pessoa. Febre demais, durante muito tempo, também pode ser um problema.

E é exatamente aí que uma vacina pode ajudar. Ou melhor, ela ajuda antes.

A vacina é uma espécie de ensaio de infecção que se dá a uma pessoa saudável. É como uma guerra de verdade, mas com bonecos fantoches no lugar dos invasores. A vacina desperta toda a máquina de guerra do sistema imune, ele reage como uma infecção real, testando e elaborando suas estratégias. Mas como não são invasores de verdade, eles não debilitam o nosso corpo de maneira séria, e nem obrigam o sistema de defesa a tomar aquelas “ações desesperadas” que são perigosas para nós.

A cada dose, o sistema imune recebe um novo treinamento, e fica mais afiado inclusive para lidar com imprevistos. É por isso que algumas vacinas são dadas em várias doses ao longo do tempo. Tomar uma nova dose delas muito cedo não adianta, mas depois de algum tempo sim.

Depois desse treinamento, quando o corpo encontra a doença de verdade, os invasores vão dar de cara com verdadeiros especialistas! Seus orgãos e células imunes serão uma máquina de guerra experiente e coordenada, que já sabe como lidar com essa infecção em particular. Vai cometer muito menos erros e acertar muito, e os micróbios invasores vão levar uma surra!

O que uma vacina não pode fazer

O quê uma vacina NÃO é, e o que ela NÃO pode fazer

Agora que você já entendeu a finalidade de uma vacina, já vai conseguir perceber facilmente no quê elas podem ajudar, quais são as suas limitações e também quais os contratempos que elas podem causar durante a fase de “treinamento”.

Em primeiro lugar, se vacinar não vai te dar o superpoder da invulnerabilidade a uma doença. Não tenha essa expectativa. Lembre-se: a única (e excelente!) coisa que ela faz é ensinar o seu sistema imune a combater uma doença. Mas quem faz esse combate é ele! E estamos falando de uma briga, não de uma guerrinha de travesseiros.

Isso significa que se o seu sistema imune estiver debilitado (várias coisas podem causar essa debilidade: privação de sono, desnutrição, stress, outra infecção concorrente, diabetes, uso de esteróides ou drogas, etc) ele não vai conseguir combater muito bem, mesmo sabendo fazer isso.

Significa também que se você for infectado por uma carga de micróbios muito grande, um ambiente ou pessoas muito infectadas, os invasores podem ganhar a briga simplesmente pela vantagem numérica!

E esses últimos são os motivos pelo quais não adianta tanto assim se vacinar sozinho. Se você estiver vacinado, mas cercado de gente que não se vacinou, um sistema imune debilitado e/ou uma alta carga de infecção vão reduzir as suas chances de se dar bem na briga. Por outro lado, ao viver em um ambiente onde todo mundo está vacinado, a força de uma pessoa compensa as fraquezas de outra, nunca vai haver uma carga infecciosa muito grande e a doença já entra na briga perdendo com inferioridade numérica.

Cada pessoa vacinada ao seu redor, se junta a você na briga, ajuda a te defender. E você ajuda a todas elas.

Vacinas podem provocar/provocam reações colaterais?

Se você me acompanhou bem até aqui, sabe que sim: é comum que uma vacina provoque algum tipo de reação, isso faz parte do trabalho dela. E até certo ponto, isso é perfeitamente normal: seu corpo realmente acha que está doente e vai tomar todo tipo de providência que acredita ser necessária, como se fosse uma doença de verdade. Porém, como vamos ver mais tarde nesse artigo, um critério importante ao desenvolver e testar uma vacina é a segurança: a garantia de que ela não vai provocar reações colaterais muito sérias ou que nos prejudiquem à médio ou longo prazo.

Vacinas podem causar de fato a doença que estão prevenindo?

Pelo certo, não. Conforme veremos adiante, há vários tipos diferentes de vacina, cada um com uma vantagem em particular. Mas em nenhuma delas existem patógenos reais, capazes de causar doenças. Isso também faz parte do quesito segurança. No entanto, pode acontecer que algumas pessoas muito debilitadas possam sim ter problemas. Para elas, a vacina é contra indicada (veja a seguir)

Vacinas podem ser perigosas ou contra-indicadas para algumas pessoas?

Sim, podem. Lembra daquelas reações que discutimos? Pessoas com algum tipo de imunodeficiência crônica (frequente ou permanente), ou reação imunológica exagerada (Aids, Lupus, imunodeficiência congênita - de nascença, síndromes genéticas) podem sofrer reações muito mais severas do que a média, e portanto mais perigosas. Ou então um sistema imune pode estar tão debilitado que qualquer treinamento seja inútil. Não adianta treinar pesado um quartel cheio de soldados aleijados: você só iria fazê-los sofrer.

Esse é outro motivo por que pessoas saudáveis tem a obrigação cívica de vacinarem. Precisamos proteger essas pessoas que não podem se imunizar, afastando os patógenos da vizinhança delas. Como elas não podem se proteger sozinhas, nós somos tudo o que elas têm.

Vacinas curam doenças em andamento?

Como vimos antes, uma vacina só treina o sistema imune, portanto é eficaz antes de se contrair a doença. Se aplicada durante, ela pode até ajudar a doença, dando um trabalho extra ao sistema imunológico que já está sobrecarregado. É como espalhar fantoches no meio de uma guerra de verdade. Não é uma boa ideia.

E também já sabemos que a vacina propriamente dita não cura, quem faz isso é o sistema imune que ela treinou.

Dúvidas principais resolvidas? Continue comigo, vamos entender como as vacinas foram descobertas, como são pesquisadas, testadas, aprovadas, produzidas e distribuídas, principalmente no Brasil.

História da vacinação

História da vacinação

Existiam poucas coisas que eu odiava mais na vida, do que vacinas e agulhas. Na minha época de criança a vacina BCG, para tuberculose, era aplicada com terríveis pistolas com uma agulha medonha dentro, que dava de presente uma rápida porém horrível dor, como se fosse uma chicotada de carrasco. É fácil reconhecer alguém da minha geração, nós temos a cicatriz circular dessa pistola no braço, na altura do ombro…

Pouco tempo depois, já era a vez dos meus pais me levarem para outra vacina, dessa vez contra a poliomielite, a vacina Sabin. E eu resistia com toda a força do meu ódio! E como crianças sempre tem esperanças para tudo, eu argumentava com a minha mãe sobre simplesmente irmos para casa…

Por sorte (minha), minha mãe localizou um rapaz que estava a certa distância, em uma cadeira de rodas, e ela me disse: “sabe o que aconteceu com ele? Não tomou essa vacina a tempo, e hoje já é tarde demais”.

Fosse a paralisia do garoto realmente provocada pela Pólio ou outro motivo qualquer, não importava: funcionou. Por um momento eu me imaginei sem as minhas pernas, e isso me fez entrar na fila cabisbaixo, entendendo que a dor da vacina acaba, mas a tristeza que a doença dava não tinha fim. Eu tremia, na minha vez. Então o enfermeiro me pediu pra mostrar a língua, derramou uma gota de gosto engraçado nela e me mandou embora… “Moço, e a vacina?” ele disse que já tinha dado. Aquela era pra beber? Por que ninguém me disse antes? Por que todas não eram assim? -.-" Albert Sabin virou meu ídolo, alguém que inventa uma vacina pra beber era obviamente muito esperto! E talvez esse evento tenha sido responsável por hoje eu ser capaz de andar, e talvez fazer outras coisas mais interessantes que correr 100m rasos…

Essa é um pouco da minha história pessoal com as vacinas, mas vamos entender só um pouco sobre como elas surgiram, vai ajudar a entender o resto.

De forma talvez um pouco irônica para 2020, os primeiros humanos a se imunizarem com algo pareciso às vacinas foram os chineses. De alguma forma eles perceberam que, se eles triturassem as cascas secas das feridas que uma infecção causava e soprassem o pó nos rostos das pessoas, quem se submetia a esse tratamento ficava mais resistente àquela doença.

Hoje nós sabemos o motivo pelo qual funcionava: o patõgeno que existia na cicatrização já estava obviamente morto, e portanto servia de amostra para o sistema imunológico, sem no entanto causar a doença.

Mas eu não considero realmente essa a origem das vacinas. Em Ciência, se algo funciona mas você não sabe o motivo, você não pode realmente afirmar que funciona.

A origem de verdade veio do médico inglês Edward Jenner. Durante um surto de varíola que arrasava a Europa, havia um rumor de uma comunidade rural que não pegava varíola, porque viviam em contato com a varíola bovina (que não tinha grande impacto nos seres humanos). Ele fez uma experiência (que nem em sonho seria aprovada hoje em dia): inoculou a varíola bovina em um garoto e algum tempo depois a varíola humana, e apesar disso o menino não ficou doente. Daí surgiu o termo “vacina” (de Variolae Vacinae, nome do patógeno da varíola bovina).

Vale lembrar que um experimento assim não é e não pode ser feito nos dias de hoje. É absolutamente ilegal inocular uma pessoa voluntária ou não, com uma doença de propósito, com o objetivo de testar qualquer droga ou imunizante. O que Jenner fez seria visto hoje como um crime hediondo… No entanto, graças a isso muitas pessoas teriam suas vidas salvas em um futuro próximo, e uma população incalculável seria poupada dessas e outras doenças em um futuro distante.

O químico Louis Pasteur iria aperfeiçoar o processo mais tarde. Em 1798 foi criado o Instuto Vacínico em Londres, e a Marinha Britânica passou a vacinar todos os seus marinheiros contra as doenças mais comuns. Em 1804 o Marquês de Barbacena trouxe a vacina para o Brasil.

Primeiro argumento anti-vacina: Por mais absurdo que possa parecer, um reverendo cristão londrino chamado Edmund Massey construiu o primeiro argumento contra a vacinação. Segundo ele, se Deus queria matar pessoas com varíola, não cabia à humanidade se defender… Na época, com tantas pessoas morrendo na Europa de uma doença visivelmente grotesca, para a nossa sorte esse argumento caiu na lata do lixo. E vamos deixar ele lá.

Então em 1904, por causa das péssimas condições sanitárias no Rio de Janeiro (que era tanto a capital do país como seu principal porto de entrada), estourou uma epidemia de Varíola (para referência, trata-se de uma virose que começa como uma “gripezinha”, depois evoluiu para febre muito alta e pústulas horríveis na pele, cheias de material infectado que, ao estourarem, transmitem a doença para outras pessoas, sendo por isso muito contagiosa. Graças às campanhas de vacinação, foi declarada para nossa sorte erradicada na década de 80. Como no caso de muitas outras viroses, jamais existiu um remédio para combater a Varíola, ela só foi controlada e vencida por causa das vacinas) na cidade.

O famoso sanitarista Oswaldo Cruz se lançou à tarefa de resolver o problema, e propôs a vacinação em caráter obrigatório (como já era feito na referida Marinha Inglesa). A população pouco informada e cheia de preconceitos não gostou, e saiu às ruas em um protesto conhecido como “A Revolta da Vacina” (qualquer semelhança com o que ocorre agora em 2020 é uma triste fatalidade).

Apesar da desinformação e má vontade pública em vários locais e ocasiões, a descoberta da vacinação foi um marco na História da humanidade, e nos deu uma enorme vantagem competitiva em relação às doenças. Varíola, Crupe e Cólera são consideradas erradicadas no mundo (os patógenos que as causam foram provavelmente extintos) graças a elas. Enquanto o Sarampo, Difteria, Rubéola e a temida Poliomielite eram consideradas erradicadas no Brasil, mas infelizmente se voltou a observar casos em localidades em que as pessoas não vacinavam seus filhos. Surtos foram observados, por exemplo, em 2016 na Amazônia e em Roraima.

Dada a importância da vacinação, em 1975 o Brasil criou o Plano Nacional de Imunização (PNI), coberto pela Lei 6259/1975 (ver link para detalhes). Ele, cuja execução está à cargo do Ministério da Saúde, estabelece os calendários de vacinação, a obrigatoriedade (sim, isso que você leu) de algumas vacinas e a responsabilidade do sistema de saúde pública em fornecer essas vacinas sem custo para a população.

Mais detalhes sobre o PNI podem ser encontrados aqui .

Processo de desenvolvimento de vacinas

Como funciona o processo de pesquisa e aprovação de uma vacina?

Vamos conversar um pouco sobre de que forma as vacinas foram produzidas no passado, para então entender toda a metodologia utilizada hoje em dia.

Como era feito antes

Como vimos historicamente, a primeira vacina contra a varíola usava o próprio líquido infectado que vinha de animais como gado ou cavalos. O vírus estava vivo, mas não era a variedade que infectava humanos e portanto não provocava a doença. Ao mesmo tempo, era parecida o suficiente para gerar anticorpos que eram eficazes contra a varíola humana.

No passado, também foi utilizado um processo (que é utilizado até hoje principalmente contra venenos de cobras), que consistia em inocular com o germe ou veneno um animal de constituição poderosa como os cavalos, cujo organismo combate com muito mais eficiência sem que de fato desenvolva a doença ou envenenamento. Mais de 40 dias depois, um soro já repleto de anticorpos era colhido do animal saudável. Nesse caso não se trata de uma vacina, e sim de um soro: basicamente um transplante de anticorpos. Um soro muito usado hoje em dia é o antitetânico (que imuniza contra a bactéria do Tétano) produzido e até exportado pelo Instituto Butantan em SP. O Instituto também produz os soros antirrábico e antidiftérico (para raiva e difteria, respectivamente).

A vantagem dos soros é que eles podem e são especialmente eficientes se aplicados durante um envenenamento ou doença. Então se você sofre um ferimento grave e sujo, seu médico já pode receitar a antitetânica, ou a antirrábica se você for mordido por um animal suspeito. Ao contrário das vacinas de fato, que são preventivas.

Posteriormente, os métodos mais básicos de criação de vacinas de fato eram a coleta do material infectado, que então passava por processos físicos ou quimicos para enfraquecer ou mesmo matar o patógeno, que podia então ser injetado nas pessoas a serem imunizadas.

Embora os princípios básicos ainda se apliquem, o atual processo de pesquisa, desenvolvimento, testagem e principalmente a aprovação de novas vacinas é mais complexo e segue muito mais critérios.

Como é feito agora

Hoje, a pesquisa de vacinas segue uma metodologia de 3 etapas, e a última etapa é por sua vez dividida em três fases:

Etapa 1: laboratorial

Ou “exploratória” como chama o CDC estadunidense. Essa fase inicial visa “conhecer o inimigo”, estudando o patógeno. Principalmente no caso de um vírus, isso envolve mapear o seu DNA. Se estuda do que o germe é feito, com quais outros ele se parece, como ele consegue infectar as pessoas, como ele age no organismo, etc. Esses dados são importantes para criar estratégias para a pesquisa.

Diversos testes são feitos para entender a interação de células humanas com o patógeno (atenuados de diversas maneiras), e como isso é feito fora do corpo em placas e meios de cultura, são chamados testes “in vitro”, ou seja: no vidro. Nada do que é visto nessa etapa é conclusivo, apenas sugere caminhos a seguir.

Etapa 2: Pré-Clinica

Nessa fase as diversas ideias de vacina são testadas em organismos de verdade, cobaias animais (sim, é triste mas infelizmente necessário), buscando confirmar os resultados “in vitro”. Se procuram mamíferos com um metabolismo o mais próximo possível dos humanos, como camundongos ou macacos.

Os critérios são dois: a criação de uma reação imunológica positiva ao patógeno (raramente uma doença humana vai afetar um animal da mesma forma, mas o sistema imune deles reage mesmo assim) e a segurança, ou seja: se a vacina candidata não causa problemas ou efeitos colaterais graves. Até mesmo sucessos nessa etapa não garantem que a vacina em pesquisa seja segura ou eficaz para humanos, é por isso que existe a próxima etapa.

Etapa 3: Clínica

O produto então já está seguro o suficiente para arriscar a ser testado em voluntários humanos. Essa é a etapa mais demorada e complicada. Até porque não se pode simplesmente vacinar alguém e em seguida inocular a doença de propósito (como fez Edward Jenner lá no início). É preciso então trabalhar com voluntários que já corram um risco conhecido (em percentual) de se contaminar naturalmente, e usar estatística.

Fase 1: Segurança

O objetivo nessa fase é confirmar a segurança do produto. Um grupo de voluntários pequeno (algumas dezenas), geralmente composto de adultos saudáveis e fora de quaisquer grupos de risco, recebe diferentes dosagens e as reações são analisadas, levando em consideração as características clinicas de cada um. A conclusão e aprovação nesta etapa garantem que o produto não cause danos aos próximos voluntários.

Embora já se possa até ter uma ideia da eficiência da vacina nesse ponto, não é esse o objetivo ainda.

Fase 2: Eficácia

O Objetivo dessa fase é avaliar se a vacina realmente provoca a resposta esperada no sistema imune. Os possivelmente vários grupos de voluntários já podem ser maiores (centenas de pessoas), e já se pode incluir pessoas de diversas idades, diferentes condições de saúde e até mesmo dentro de grupos de risco.

Como o objetivo é avaliar tanto a eficácia do produto quanto possíveis efeitos colaterais em pessoas de risco, entram em cena os testes randomizados com duplo cego. Como isso funciona?

  • Os voluntários disponíveis são divididos em dois grupos, escolhidos por sorteio (daí o termo randomizado)
  • Um dos grupos receberá o produto verdadeiro, o outro recebe um produto falso porém idêntico. Apenas o diretor do experimento vai saber qual grupo receberá o quê.
  • Nem quem aplica as vacinas em cada voluntário, nem o próprio voluntário, sabem o que estão tomando. Por isso o termo duplo cego.
  • Os voluntários são monitorados. Como ningém sabe quem tomou o quê, podem ser descartados quaisquer fatores psicológicos ao descrever os sintomas de efeitos colaterais.
  • Após algum tempo se avalia se o grupo que recebeu a vacina real tem presença no sangue de anticorpos, mostrando que a vacina provocou reação do sistema imune, e se espera que o grupo que tomou vacina falsa não apresente o mesmo.

Se efeitos colaterais mais graves ocorrerem no grupo vacinado, pode ser avaliada uma mudança na dosagem recomendada.

Fase 3: Desempenho no mundo real

Sem mais voluntários escolhidos a dedo. Agora é hora de testar o produto no mundo real, sem levar em conta características clínicas, e os voluntários devem ser pessoas que vivam expostas à doença e já corram um razoável risco de infecção de forma natural (profissionais de saúde, militares, bombeiros, equipes de resgate, etc).

Não há limite de tamanho dos grupos de teste, e os testes serão sempre randomizados e com duplo cego.

Se ainda assim não houverem efeitos colaterais graves, o produto é considerado seguro. Se a vacina consegue baixar de forma significante as estatísticas naturais de infecção esperadas para o grupo que recebe a vacina real, em comparação com o grupo que recebeu o produto falso, o produto é considerado eficaz.

Quando um número esperado de voluntários infectados (se espera que sejam apenas do grupo que tomou a vacina falsa) é atingido, a fase é considerada concluída.

Como a exposição ao patógeno precisa ocorrer (ou ser esperado que ocorra) naturalmente, essa fase pode levar anos. No entanto, a ocorrência de surtos, epidemias e pandemias pode encurtar esse tempo, já que infelizmente a “oferta” de risco de infecções e o número de voluntários interessados aumenta bastante. Voltaremos a esse assunto no próximo artigo.

Aprovação

Depois de todo esse processo de testagem, todos os resultados são compilados e os laudos são entregues para auditoria dos órgãos competentes, responsáveis pela permissão de produção e distribuição. Cada país tem o seu departamento específico para isso, como a FDC estadunidense ou a ANVISA brasileira. E cada um deles tem o seu próprio conjunto de critérios de avaliação.

Apenas depois dessa aprovação, a vacina pode chegar até as pessoas. Não existe risco disso ocorrer diferente. Os orgãos de controle costumam ser autarquias (falaremos disso adiante) e muito resistentes à pressões externas.

Quem produz as vacinas no Brasil?

Em nosso país, os processos de testagem são apoiados pelo Instituto Oswaldo Cruz (FioCruz) no Rio de Janeiro, Instituto Butantan, em São Paulo e a Bio Manguinhos, também no RJ mas de competência federal.

Cada nova vacina precisa ser aprovada pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), com sede em Brasília/DF. A ANVISA é uma autarquia, ou seja: tem poderes próprios e está subordinada diretamente à população, não podendo portanto receber comandos ou influência indesejada de qualquer dos poderes da república em suas decisões. Ninguém do governo pode mandar a agência fazer isso ou aquilo.

A produção das vacinas aprovadas pode ser realizada pelos institutos já citados, laboratórios nacionais ou internacionais, conforme a demanda, dentro das especificações técnicas já aprovadas pela vigilância sanitária.

Vale lembrar que o Brasil é uma referência mundial na pesquisa e produção de soros e vacinas. Estamos entre os melhores do mundo na qualidade dos profissionais e dos produtos finais. Vacinas e soros desenvolvidos no Instituto Butantan são utilizadas em todo o planeta.

Plano Nacional de Imunização

Como as vacinas são distribuídas em nosso país?

Conforme já citado, o PNI (Plano Nacional de Imunização) fornece a base jurídica e a organização necessária para a distribuição e acompanhamento da vacinação em território nacional. Ao invés de depender de esforços locais, o plano garante a unificação desses esforços.

O PNI estabelece, inclusive, um calendário de vacinação que para crianças, jovens, adultos e idosos para as doenças mais comuns que, embora dominadas, ainda não foram erradicadas. Você pode baixar essa planilha clicando aqui .

Dessas vacinas, apenas 4% não são produzidas no Brasil ainda, mas estão em processo de transfêrencia de tecnologia. Como somos uma referência mundial no assunto, isso nos deixa em uma posição privilegiada.

Ao todo, o SUS (Sistema Unico de Saúde) brasileiro oferece 15 vacinas gratuitas para a população, e várias delas são polivalentes (protegem contra mais de uma doença).

Você pode consultar o calendário nacional de vacinas (e atualizar sua caderneta pessoal), ser informado de campanhas e até mesmo agendar vacinação e atendimentos através do aplicativo mobile do SUS

Continua a seguir…

Agora que já conversamos sobre vacinas em geral, convido você para conhecer o que está sendo feito, em caráter emergencial, na pesquisa de vacinas para a pandemia de Covid-19. Dedique alguns poucos minutos do seu tempo com o próximo artigo , é um assunto muito importante.

Como saúde pública é algo que levamos muito a sério e entendemos que é necessário zelar pelo bem estar dos brasileiros, nossos clientes ou não, sinta-se à vontade para usar o chat no canto direito da página para conversar com a gente sobre o assunto em tempo real, ou use a área de comentários abaixo. Você também pode nos encontrar em nossas redes sociais (procure no rodapé da página).

 

Qual a sua opinião? Deixe um comentário!

comments powered by Disqus